Poesias


CANTANDO SOBRE OS OSSOS
(Virgínia Leal)




Ouço ao longe o chamado do tempo fora do tempo.
Um uivo rouco e agudo que penetra nas fibras de tudo que é
O vento que corre em quatro patas

Soa a hora de ficar e de ir embora
Escuto a canção da mestra, a voz da alma
O hino da criação que sempre desejei entoar
O chamado feroz de matilha

El Duende sopra o espírito sobre o meu rosto
Sou conduzida pelo éter do início dos tempos

Vejo aquela que viaja nas horas  
A mãe dos dias, a criadora dos seres e de todas as coisas
A senhora do lodo e das trevas. A deusa da morte, a virgem decaída.
A que se dissolve em fumaça, torna-se espectro
A dona dos céus, dos ventos e pensamentos; aquela que sabe 

Ela vive onde as mulheres correm com lobos  
Os bosques distantes me chamam
Toco em mãos que tecem talismãs e amuletos
Recolho ossos e refaço o esqueleto da história
Ela mora nos ovários, onde tudo é semente 

Navego no rio por baixo do rio
Sinto a força da dança, da vida secreta
Um vibrar que cheira a ossos e a húmus
Escuto o sussurrar da guardiã da alma: “por aqui, por aqui”
Sinto o manto do instinto e do saber 

A luz do abismo me atravessa
Viro névoa, sou o sopro divino.


Um comentário:

  1. Amiga Virgínia,

    foi exatamente assim que me senti quando o espiríto de luz do meu instito selvagem se despertou ao som da música entoada pela mestra. Obrigada por traduzir em poesia essa bela história.

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